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O que é BGP e por que ele move a internet

BGP (Border Gateway Protocol) é o protocolo que faz a internet funcionar como uma rede única. Ele é responsável por decidir como o tráfego se move entre as redes de diferentes provedores, países e empresas — e quando ele falha ou é mal configurado, partes inteiras da internet desaparecem do mapa.

O problema que BGP resolve

A internet não é uma rede só. É uma coleção de dezenas de milhares de redes independentes — de provedores de internet, empresas, universidades, governos — conectadas entre si. Cada uma dessas redes tem autonomia sobre seus próprios endereços IP e decide suas próprias políticas de roteamento.

O desafio é: como um pacote enviado do seu computador em São Paulo sabe chegar a um servidor em Tóquio, passando por redes de cinco ou seis operadoras diferentes que nunca conversaram diretamente?

A resposta é BGP. Ele é o protocolo que permite que essas redes troquem informações sobre quais endereços IP elas alcançam e como chegar lá — e que o tráfego encontre o caminho certo entre elas.

O que é um Sistema Autônomo (AS) e para que serve o ASN

Cada rede independente que participa do roteamento global da internet é chamada de Sistema Autônomo (AS). Um AS pode ser uma operadora como a Claro ou a Vivo, um provedor de cloud como a AWS, uma grande empresa com rede própria, ou até uma universidade.

Cada AS recebe um número identificador único chamado ASN (Autonomous System Number), atribuído por entidades como ARIN, RIPE e LACNIC. O ASN da Claro Brasil, por exemplo, é AS 28573. O da AWS é AS 16509.

BGP é o protocolo que os ASes usam para trocar informações entre si. Cada AS anuncia para seus vizinhos BGP quais prefixos de IP (blocos de endereços) ele possui ou pode alcançar. Esses anúncios se propagam pela internet toda, e cada roteador BGP constrói sua própria tabela de roteamento com base nas informações recebidas.

Como BGP decide por onde o tráfego passa

Diferente de protocolos de roteamento interno (como OSPF, que otimiza pelo caminho mais curto em métricas técnicas), BGP é um protocolo de política. A decisão de qual caminho usar não é apenas técnica — leva em conta acordos comerciais, preferências de tráfego, custo de trânsito.

Um AS pode anunciar que alcança um determinado bloco de IP por vários caminhos diferentes. O roteador BGP escolhe o melhor caminho com base em atributos como comprimento do AS-PATH (quantidade de saltos entre ASes), preferências locais e políticas configuradas. Essas políticas refletem a realidade comercial da internet: provedores têm acordos de peering (troca gratuita de tráfego) e acordos de trânsito (troca paga).

Quando BGP falhou e o mundo percebeu

BGP não tem mecanismo de autenticação nativo robusto, o que historicamente criou incidentes sérios:

Em 2010, um provedor na China anunciou por engano prefixos BGP de milhares de redes ao redor do mundo — incluindo endereços do Pentágono, da NASA e de grandes corporações. Por cerca de 18 minutos, parte do tráfego dessas redes foi roteada através da China. O incidente ficou conhecido como “China Telecom BGP hijack”.

Em 2019, um pequeno provedor na Pensilvânia configurou erroneamente seu roteador BGP e acabou anunciando rotas de centenas de redes, incluindo Cloudflare e Facebook. Por horas, tráfego de grandes serviços da internet passou por uma rede sem capacidade para suportá-lo, causando degradação significativa.

Em 2021, o Facebook passou horas completamente inacessível porque uma mudança de configuração de BGP retirou da internet os anúncios de todos os prefixos IP do Facebook — o que fez roteadores ao redor do mundo concluírem que as redes do Facebook não existiam mais.

Esses incidentes mostram que BGP é simultaneamente o que mantém a internet unida e um dos seus maiores pontos de fragilidade quando mal gerenciado.

Por que isso importa para a sua empresa

Na prática, a maioria das empresas nunca precisa configurar BGP diretamente. Mas entender BGP importa em alguns cenários:

Multi-homing: se sua empresa contrata dois provedores de internet diferentes para redundância, BGP é o protocolo que permite usar ambos os links de forma inteligente — não apenas como failover, mas com balanceamento de carga e controle de qual tráfego sai por qual link. Para isso, sua empresa precisa de um ASN próprio e de um bloco de endereços IP independente de provedor (provider-independent IP).

Link direto com datacenter cloud: quando você contrata um link dedicado com um provedor de cloud ou datacenter, a sessão BGP entre seus roteadores e os roteadores do provedor é o que anuncia suas rotas e garante o roteamento correto do tráfego privado.

Continuidade de serviço: entender que BGP pode causar indisponibilidade por erros de configuração — seus ou do seu provedor — ajuda a preparar planos de contingência e monitoramento adequados. Ferramentas como BGPmon e RIPE RIS podem alertar quando suas rotas BGP estão sendo anunciadas de forma anômala.

Escolha de provedor: provedores com boa conectividade BGP (muitos peerings, baixa latência para destinos relevantes para seu negócio) entregam melhor performance de rede do que provedores com poucas conexões e dependência de trânsito. Isso é um critério técnico real na escolha de ISP ou datacenter.

O que está sendo feito para tornar BGP mais seguro

A vulnerabilidade a sequestros de rota gerou iniciativas de segurança:

RPKI (Resource Public Key Infrastructure) permite que donos de blocos de IP assinem criptograficamente quais ASes têm autorização para anunciar seus prefixos. Roteadores que verificam RPKI rejeitam anúncios não autorizados. A adoção cresce, mas ainda está longe de ser universal.

Route filtering e IRR (Internet Routing Registry): boas práticas operacionais que provedores responsáveis seguem, filtrando anúncios BGP inconsistentes de seus clientes antes de propagá-los à internet.


Quer entender como a conectividade BGP dos datacenters Adentro afeta a performance das suas aplicações? Fale com nossa equipe técnica.

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