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Disaster Recovery Playbook para Empresas Brasileiras

A maioria das empresas tem algum documento chamado “Plano de DR”. Pouquíssimas têm um DRP que funciona quando precisam de verdade. A diferença está nos detalhes: runbook testado, responsáveis definidos, critérios de ativação claros, e uma cadência de testes que garante que o plano ainda funciona 18 meses depois de escrito.

DRP vs BCP: o que é o quê

DRP (Disaster Recovery Plan): foca na recuperação de infraestrutura de TI após um evento disruptivo. Define como restaurar sistemas, dados e conectividade ao estado operacional.

BCP (Business Continuity Plan): plano mais amplo que abrange a continuidade do negócio como um todo — não só TI. Inclui onde os colaboradores trabalharão, como os processos de negócio continuarão sem os sistemas, comunicação com clientes e fornecedores.

Eles se complementam: o BCP é o plano maior, e o DRP é a seção de TI dentro dele. Para a maioria das PMEs, o DRP é o que existe. O BCP deveria existir também — mas raramente existe de forma completa.

Este guia foca no DRP — e em como construir um que seja executável, não apenas arquivável.

Definindo RPO e RTO por sistema

O primeiro passo do DRP é definir, para cada sistema crítico, o quanto de perda de dados é aceitável (RPO) e em quanto tempo precisa estar operando (RTO). Esses números determinam tudo — a estratégia de DR, o custo, a infraestrutura necessária.

Como definir com a área de negócio (não com TI):

Leve cada sistema para o responsável de negócio e faça duas perguntas:

  1. “Se esse sistema ficar indisponível, quando começa o impacto real para o negócio?” (Resposta → RTO)
  2. “Se esse sistema voltar agora mas com os dados de 4 horas atrás, o que você perde? E de ontem? E da semana passada?” (Resposta → RPO)

As respostas definem os objetivos. TI então determina se é tecnicamente viável e a que custo.

Exemplo de matriz RTO/RPO:

Sistema RTO RPO Estratégia
ERP (produção) 4 horas 1 hora Warm standby com replicação
E-mail (Exchange) 8 horas 4 horas Pilot light
File server 24 horas 24 horas Backup & Restore
Sistema de ponto 48 horas 24 horas Backup & Restore
Intranet / Wiki 72 horas 48 horas Backup & Restore

As 4 estratégias de DR: quando usar cada uma

1. Backup & Restore (RTO: 4–24h, RPO: horas)

O backup é copiado para um local seguro. Em caso de desastre, você provisiona novo ambiente e restaura o backup. Mais lento, mas mais barato.

Quando usar: sistemas de suporte ao negócio, dados históricos, sistemas que não são críticos para operação diária. Inadequado para sistemas com RTO < 4h.

Custo relativo: 1x (referência)

2. Pilot Light (RTO: 1–4h, RPO: 15min–1h)

A infraestrutura mínima fica em standby no site de DR: banco de dados com replicação ativa, dados sincronizados. Os servidores de aplicação ficam desligados (ou em tamanho muito reduzido). Em um desastre, você “acende” o ambiente — provisiona os servidores de aplicação rapidamente, aponta o DNS para o site de DR.

Quando usar: sistemas importantes que têm tolerância de algumas horas, mas não de um dia inteiro.

Custo relativo: 3–5x o custo do Backup & Restore.

3. Warm Standby (RTO: 15min–1h, RPO: minutos)

Um ambiente menor mas funcional roda continuamente no site de DR. Dados são replicados em tempo real ou quase real. Em caso de desastre, você redireciona o tráfego para o site de DR e escala o ambiente (adiciona capacidade).

Quando usar: sistemas críticos onde horas de downtime têm impacto financeiro significativo. ERP de empresas que não podem parar.

Custo relativo: 5–10x o Backup & Restore.

4. Active-Active (RTO: segundos, RPO: zero ou quase)

Dois sites operam simultaneamente, compartilhando a carga. Um balanceador de carga distribui requisições. Se um site falha, o outro absorve todo o tráfego automaticamente. Sem interrupção perceptível.

Quando usar: sistemas mission-critical onde downtime é literalmente inaceitável — trading, sistemas de pagamento, plataformas de e-commerce de alta escala.

Custo relativo: 10–20x o Backup & Restore. O site de DR precisa ter capacidade para absorver 100% da carga, então você paga por capacidade dobrada permanentemente.

Montando o runbook de DR

O runbook é o manual de instruções do DR. É o que sua equipe vai seguir às 3h da manhã quando um desastre acontecer. Precisa ser tão claro que alguém que nunca executou o DR consiga seguir — porque a pessoa que sempre fez isso pode estar de férias ou ser exatamente ela que está doente.

Estrutura do runbook:

Seção 1: Critérios de ativação

  • O que constitui um “desastre” que justifica ativar o DRP? (Não confundir com incidente de TI normal)
  • Exemplos: datacenter principal inacessível por mais de X horas; perda total de link de comunicação; falha de storage principal sem ETA de recuperação
  • Quem tem autoridade para declarar o desastre e ativar o DRP?

Seção 2: Contatos e responsabilidades

  • Árvore de comunicação: quem liga para quem, em que ordem
  • Contatos do provedor cloud (suporte 24/7, número de emergência, dados do contrato)
  • Contatos de fornecedores críticos (fabricante do ERP, suporte do banco de dados)
  • Responsável técnico por cada sistema crítico (com backup — o substituto se o principal não estiver disponível)

Seção 3: Procedimentos passo a passo por sistema

Para cada sistema crítico, uma sequência numerada de ações:

ERP — Procedimento de failover para DR

1. Verificar que o site principal está realmente indisponível (ping, acesso ao portal)
2. Contatar provedor cloud do site principal para confirmar causa e ETA [Contato: 0800-xxx-xxxx]
3. Se ETA > 4 horas ou causa desconhecida: ativar DRP (obter aprovação do Gerente de TI)
4. Acionar equipe: [lista de pessoas e contatos]
5. Acessar portal cloud do site de DR [URL: xxx, credencial: vault/DR-credentials]
6. Iniciar VMs do ERP no site de DR em ordem: DB → APP → WEB
7. Aguardar 10 minutos e verificar status das VMs
8. Testar acesso ao ERP no site de DR [URL de DR: xxx]
9. Validar integridade dos dados: executar relatório de últimas transações e comparar com backup
10. Atualizar DNS para apontar para site de DR [Registrador: xxx, TTL: 60s]
11. Aguardar propagação do DNS (5–15 minutos)
12. Comunicar usuários via [canal: e-mail/Teams/WhatsApp] que sistema está operando no DR
13. Monitorar sistema nas próximas 4 horas
14. Documentar hora de ativação e eventos no log de incidente

Seção 4: Procedimento de retorno ao site principal

Tão importante quanto o failover é o failback — quando o site principal volta, como você retorna sem perder os dados criados durante o DR?

Como testar o DR — três níveis de teste

Nível 1: Tabletop (Simulação em mesa)
Periodicidade: semestral no mínimo
O quê: reunião de 2–3 horas com todos os responsáveis. Um moderador apresenta um cenário de desastre e a equipe percorre verbalmente o runbook. Não há ativação real do DR.
Objetivo: identificar lacunas no runbook, responsáveis que não sabem o que fazer, dependências não documentadas.

Nível 2: Restore parcial
Periodicidade: trimestral
O quê: restaurar um sistema específico (preferencialmente não o mais crítico primeiro) a partir do backup para um ambiente isolado. Verificar integridade dos dados, tempo de restore real vs. RTO documentado.
Objetivo: validar que o backup funciona e que o processo de restore é exequível no tempo definido.

Nível 3: Failover real
Periodicidade: anual no mínimo para sistemas críticos; semestral para sistemas mission-critical
O quê: ativar o ambiente de DR real — redirecionar DNS, testar que usuários conseguem trabalhar no ambiente de DR, validar todas as integrações externas.
Objetivo: o único teste que prova que o DR funciona de verdade.

Regra de ouro: se você não testou o failover nos últimos 12 meses, você não tem DR. Você tem esperança.

Frequência de teste por criticidade

Tipo de sistema Tabletop Restore parcial Failover real
Mission-critical (RTO < 1h) Trimestral Mensal Semestral
Crítico (RTO 1–4h) Semestral Trimestral Anual
Importante (RTO 4–24h) Anual Semestral Bienal
Suporte (RTO > 24h) Anual Anual A cada 3 anos

Mantendo o plano atualizado

Um DRP que foi escrito há 2 anos e nunca atualizado é quase tão perigoso quanto não ter DRP — você pensa que está protegido mas o plano descreve um ambiente que já não existe.

Gatilhos obrigatórios de atualização:

  • Qualquer novo sistema crítico adicionado ao ambiente
  • Mudança de provedor cloud ou de datacenter de DR
  • Mudança de responsáveis técnicos (pessoas que saíram da empresa)
  • Resultado de teste de DR que revelou lacunas
  • Mudança na estrutura da empresa (M&A, nova unidade, novo processo de negócio crítico)

Revisão periódica: independente de gatilhos, revise o DRP completo anualmente. Agende como projeto — com data marcada no início do ano e responsável nomeado.


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